Promessa

Isso não é um poema:

Não é mais uma tentativa mesquinha de versar sobre meus problemas

Tão pequenos, mas, tão pequenos!

que a única coisa que fez deles problemas,

foi eu ter lhes dado alguma atenção

Isso é uma promessa:

De daqui em diante me desnudar desse eu

que eu insisto em tornar lírico

                                               (Já notaram essa mania de enfiar o eu em tudo?

                                     Como se as coisas centralizassem sempre uma essência

                                                em si e para si

                                 como se tudo fosse uma escala de replicação do indivíduo?

                                  Há mania mais triste que achar que possível encerrar algo

                                                em si e para si

                                                                                      e que isso basta?)

Onde estava?

Ah, sim… falava em me desnudar o eu

(que quis lírico)

pra ver se (pseudo) poetizado ele ficava mais bonito

Mas foi perda de tempo achar que em mim eu fosse encontrar

                                                                        uma essência em si e para si

                                                                                               e me bastar

Repito:

Isso é uma promessa

de buscar o tu, o ele e ela,

o nós, vós, eles e elas

que já nasceram líricos

por serem plurais

por conversarem nas entrelinhas

por se renovarem a cada leitura

por não serem em si nem para si

por serem sempre em relação à

20 anos Blues

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos

          Oficialmente, faço exatamente 20 anos hoje, mas pensando sobre significado do aniversário ao som dessa música, entrei numa divagação sobre o tempo em que eu estou no mundo. O resultado dessa viagem, eu divido com vocês aqui:

          O mundo chegou para mim há 20 anos. Não digo que eu cheguei no mundo há 20 anos, porque uns meses antes disso eu já era “o novo bebê da família”. Também era a nova irmãzinha, priminha, sobrinha, netinha… já era um bando de coisa diferente pra muita gente. Cheguei antes da chegada e sem pedir pra entrar na corrida!

          É provável que antes disso eu já fosse alguém, não como hoje, algo mais como um vulto imaginário na cabeça daqueles que vieram a se tornar meus pais. Quem sabe eu tenha sido um dos filhos que meu pai ou minha mãe disseram que nunca teriam. Talvez eu tenha sido uma bailarina, um músico, um médico, uma metade do casal de gêmeos que eles imaginaram - em conjunto ou separadamente - em um desses momentos da vida em que pretenciosamente traçamos roteiros para nós mesmos como se nos bastássemos. [Nota aos familiares: Aliás, me desculpem pela provável frustração que eu causei em suas imaginações, mas agora a merda já está feita.]

          Enfim, isso tudo é especulação, não dá pra saber quem eu fui e para quem antes que o mundo chegasse para mim. O fato é que quando eu alcancei o mundo, ele já havia me inventado faz tempo. O que me leva a uma primeira conclusão: tenho mais tempo do que a minha idade.

          Mas, o que são esses 20 anos, afinal? Se eu sou alguém desde antes de existir (sic), que diferença faz o dia em que eu e o mundo finalmente nos encontramos? Ora, (preciso acreditar que) essa data importa na medida em que, por mais que eu já existisse para o mundo antes, eu não sou exatamente quem ele planejou. Todos os dias que se somaram e resultam hoje em 20 anos foram vividos nesse impasse entre o mundo e eu. Ou, melhor, entre eu-pro-mundo e eu-pra-mim.

          Foi ao longo desses 20 anos que eu tomei conhecimento do eu-pro-mundo. Por boa parte desse tempo, eu o vivi como o único eu possível. Em algum momento que não sei identificar pontualmente, como uma roupa que não serve mais, o eu-pro-mundo se tornou de alguma forma desconfortável. E o eu-pra-mim se tornou cada vez mais manifesto. Hoje, (acredito e me agrada acreditar que) estou costurando um eu-pra-mim e tentando mostrá-lo pro mundo que antes me via somente como mais uma invenção (ou determinação) dele, mais um eu-pro-mundo dentre tantos outros.

          Acho que o mundo não esperava que eu fosse ser diferente do que ele planejou (assim como tantos Eus ao redor dele que eu chamo de Outros). Há um porém: eu também não esperava que o eu-pra-mim fosse tão parecido com o eu-pro-mundo, se confundisse e se importasse tanto com ele. Entendem? É uma coisa complicada essa coisa de pro-mundo e pra-mim, me faz  pensar que é mais fácil ser quando não se existe (sic, não estou fazendo muito sentido hoje). Antes do mundo chegar para mim, eu podia ser tudo por ser só uma possibilidade vaga.

          Mas a partir do momento em que o mundo chegou para mim, se instalou esse dilema entre o eu-pro-mundo e o pra-mim. Ainda não sei se existe só um pra-mim ou só um pro-mundo, mas acho difícil isolá-los, fazê-los independentes entre si. Na data de hoje, conhecida também como aniversário, completam-se 20 anos desse dilema, duas décadas em que o tempo do velho eu-pro-mundo se sobrepõe e briga com o do novo eu-pra-mim.

          Dessa confusa divagação que já está ficando chata, o que eu consigo delinear mal e porcamente é uma linha tênue entre esses eus. O pro-mundo se entende para trás, para o passado distante e, muitas vezes, anterior ao meu nascimento. Já o pra-mim se projeta num futuro que - por excesso de esperança ou falta de experiência - ainda não vejo o ponto final. Mas, é só uma linha tênue, não um muro. Pra-mim e pro-mundo se entreolham e eu me pergunto o que eu quero de e para cada um. Será que daqui a alguns anos a data do meu aniversário será não a comemoração do dilema entre os eus, mas da conciliação deles?

          Não tem como saber agora, e tudo o que eu não sei eu jogo no tempo que me carrega (mas também carrego comigo) e transborda nessas duas décadas que lhe servem de recipiente. Enfim, é sobre esse tempo que transborda e sobre o qual eu-pro-mundo e eu-pra-mim se estendem, que eu me atrevo a arriscar uma conclusão:

          Eu tenho muito pela frente pra já ter 20 anos e muito detrás de mim para ter só 20 anos.

Depois da tempestade

Chovia.

Sob o fino véu d’água
tudo no mundo
parece poesia

Quis eu também
fazer parte dessa arte
e me atirei no meio da rua
sem pensar

Deixei-me levar de braços abertos,
me fazendo de barreira ao vento,
engolindo a natureza,
sentindo a força dela
nas pequenas gotas
que caíam sobre minha língua que lambia o céu

Era tudo tão intenso que me sentir libertar

e libertar…

                                       e libertar…

                                                                            e libertar…

               até queimar.

Sentido-me incendiar,

num lampejo me dei conta:

“Merda!

                         É chuva ácida.”

ÁGUA

quero ser como a água
renovável e escassa

infinita em sua finitude
sempre a mesma
e outra

é chuva

é mar

é rio

é lençol

é copo

é suor

do corpo

é lágrima

do rosto

água que tem fonte
que molha e seca

água que traz,
água que leva

infinita em sua finitude
sempre a mesma
e outra

Read More

Num dia azul de verãoSinto o ventoHá fôlhas no meu coraçãoÉ o tempo
Recordo um amor que perdiEle riDiz que somos iguaisSe eu noteiPois não sabe ficarE eu também não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei