Poema pra Camilo

De onde vem a calma desse menino?
ele carrega consigo uma paz
que eu invejo e venero

Tem jeito aberto de ser contido
que tem ares de antigo
que semeia o sorriso
em quem for que vê passar

Semente que germina dente por dente
faz da boca raiz da flor
que desabrocha no brilho do olhar

E ele anda sempre meio alheio
anda assim, sem receio
sem nada a temer

Detrás dos óculos de lentes redondas
ele esconde um mistério
vê o mundo de um modo
que ninguém entende

A caixa de surpresas que é a vida
ganha laço de fita
fica bem mais bonita
que dá gosto em viver

Será que se eu pedir ele me ensina
essa bossa tranquila
esse jeito de ser?

Ah, Camilo!
se me contasse o segredo, eu manteria sigilo
que esse estilo bicho-grilo combina demais com você

Perna de pau

Foi chegando com marra de artilheiro
mas já é segundo tempo
e tá zero a zero no placar

como meu time vem
de uma série de derrotas
continua na retranca
pra poder se preservar

não tenho tática,
nem esquema de defesa
tô só na pequena área
te pedindo pra me derrubar

pára logo com esse jogo preso
que até o meu goleiro
fez da trave travesseiro
tá tirando um cochilo
do lado esquerdo do gol

vem, me ataca
dribla logo minha zaga
pr’eu largar essa metáfora
que de sedução eu não sei nada
muito menos de futebol

todo grito é um milagre

a voz estridente ao se propagar no espaço

faz tremer do lado de fora

o que está condenado a ficar do lado de dentro

é alma que se liberta sem fugir da cela

sem sair do cárcere do corpo diz

“eu existo,

eu vivo,

eu transformo”

Cura

Repouso eu só aceito
se seus braços forem leito
então me encaixo e deito ao seu lado,
faço do ombro um travesseiro

enquanto isso os meus dedos
            vão
            brin
            can
            do
           com
           seus
           pêlos

E assim,
sem se esforçar
você remedia minhas feridas;
anestesia os meus medos;
desperta meus desejos;

é veia a pulsar,
circulação a fluir 

Nunca me deixei ser cuidada
mas cedi ao seu tratamento
pois a frequência cardíaca
que eu dava por perdida
encontrei-a no teu peito.
 

Recado na caixa postal

uma dose dupla
melhor duas
a noite é longa, dá pra três

ah, sei lá
quer saber?
parei de contar no seis

se eu me perder,
faz um favor:
vê se não me acha, não

ou melhor:
só me ache se for
pra deixar minha roupa
espalhada pelo chão 

pensando bem
nem me procura, não vale a pena
que além da sua alma, sua piroca é pequena
se for pra me arrepender
que seja da ressaca de Bourbon